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Veículos limpos
A consciência ambiental aliada à tecnologia traz diversos
desafios para a indústria automobilística

 



Comercializados desde 2003, quando a Volkswagen lançou o Gol TotalFlex, os automóveis bicombustíveis foram ganhando espaço no mercado. No primeiro ano, forarn emplacados 31.532 automóveis e comerciais leves com motorização flex, saltando para 2.647.911 unidades em 2009, volume que representava mais de 87% do mercado. Entre 2003 e 2010, os veículos flex alcançaram um marco histórico na indústria automotiva: 10 milhões de unidades comercializadas.

Os números mostram que os carros bicombustíveis passaram a ser preferência dos consumidores. Foi uma iniciativa que deu certo - além da vantagem dos consumidores terem a facilidade de poder escolher que combustível colocar no tanque, a tecnologia encontrou infraestrutura praticamente pronta já que os cerca de 35 mil postos de combustíveis do País já contavam com bombas de abastecimento para o álcool.

Acompanhando a demanda do consumidor, a produção de etanol cresce constantemente. A previsão para os anos 2010/2011 é de 27,4 bilhões de litros de etanol, ante 24 bilhões de litros no período anterior, segundo a Única - União das Indústrias de Cana-de-açúcar. A cada dia, o etanol ganha mais espaço e ultrapassa as fronteiras. As exportações para o período de 2010/2011 devem chegar a 3,1 bilhões de litros. A produção também se expande no mundo. Há projetos para produção de açúcar e etanol em negociação com Moçambique, Sudão, Angola, Marrocos, Gana e Serra Leoa. Os avanços são contínuos. A tecnologia flex também tem despertado o interesse das indústrias de caminhões, ônibus e tratores. No final de 2009, a Scania e a Vale Soluções em Energia assinaram, em Estocolmo, acordo de cooperação tecnológica visando desenvolvimento, no Brasil, de motores para geração de eletricidade a partir do etanol e do gás natural. Futuramente, os motores serão utilizados para gerar eletricidade e rnover bombas e compressores em maquinários utilizados nas indústrias de mineração e agricultura. "O mercado brasileiro para motores estacionários nestes segmentos é estimado em 3.000 unidades por ano. Portanto, uma parceria bem sucedida entre a Scania e a VSE tem grande potencial comercial", afirma Celso Torí, diretor de Vendas de Motores para a Scania na América Latina.

Já o grupo AGCO Sísu Power, controlador da Valtra, apresentou, em 2009, o primeiro trator com motorização flex - movido a óleo díesel e etanol. O modelo deve ser lançado no segundo semestre do ano.

Tecnologia limpa - A tecnologia flex é uma conseqüência da busca de urna solução viável para o uso de combustíveis alternativos e renováveis. Gerado a partir da cana-de-açúcar, o etanol é um combustível de origem orgânica e renovável e considerado menos poluente que a gasolina. Quase todo o carbono produzido na queima dos veículos é absorvido na lavoura da cana pelo processo de fotossíntese. Outra vantagem do etanol é a redução dos gases geradores do efeito estufa. Comparado à gasolina, o etanol reduz as emissões dos gases em até 60%.

Realidade no Brasil, a tecnologia "limpa" vai se expandindo pelo mundo. Em maio, a Única participou da conferência anual Alternative Fuels and Vehicles (AF&V2010) ajudando a demonstrar como o etanol de cana pode auxiliar os Estados Unidos a economizarem no momento de abastecer, reduzir a dependência de petróleo do Oriente Médio e melhorar o meio ambiente. No mesmo mês, pesquisadores japoneses também vieram ao Brasil para analisar a sustentabílidade do etanol de cana. A legislação no Japão permite mistura facultativa de até 3% de etanol na gasolina, e há a possibilidade de aumentar esta mistura para até 10%. A meta no Japão é reduzir ern 25% o total de emissões de gases causadores do efeito estufa, em comparação aos níveis de 30 anos atrás. É o Brasil "exportando" a experiência com o combustível mais "limpo". Em contrapartida, outros países avançam em carros ainda mais "verdes" — os VÊ's (Veículos Elétricos).

Buscando a sustentabilidade, novas iniciativas estão surgindo no mercado automobilístico em todo o mundo. Segundo Pietro Erber, presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), há três tipos de veículos elétricos:

•       Híbridos (a energia elétrica é originada a bordo por um gerador acionado por motor a combustão);

•       Bateria (a energia elétrica é fornecida, por uma fonte externa);

•       Plug-in (combina características aos híbridos e à bateria, já que a bateria pode ser alimentada tanto por fonte externa quanto pelo gerador de bordo).

Em janeiro deste ano, a Volkswagen apresentou, no Salão de Detroit, o New Compact Coupé, versão conceitual híbrida que emite apenas 98 gramas de gás carbônico por quilômetro e atinge 227 km/h. O veículo combina o motor TSI à gasolina, com 150 cv e o motor elétrico de 20 kW (27 cv) e a transmissão DSG com sete marchas. No final de 2009, a montadora já havia apresentado, no Salão de Los Angeles, o Up! Lite, um protótipo que possui motorização 0,8 litro de dois cilindros movido a díesel e um propulsor elétrico.

 

A Toyota apostou na combinação do motor a explosão e elétrico ao lançar o Prius, em 1997. Mas, somente em 2004 se tornou um sucesso de vendas. Em 2009, o modelo conquistou o prêmio Carro do Ano no Japão. Na índia, a REVA produz o Revai, equipado com baterias de chumbo-ácido. A GM, a partir de 2011, começará a comercializar o Volt, modelo que utiliza propulsão elétrica e combustão interna, nos EUA.

Os números mostram que a iniciativa está sendo aceita pelo mercado. A venda mundial de veículos elétricos híbridos cresceu nos últimos 10 anos a uma taxa anual de 46%, segundo a ABVE - Associação Brasileira do Veículo Elétrico. Em 2009, totalizaram 750 mil carros. Os veículos estão rompendo com a tradição de motores acionados por combustão interna, partindo para o acionamento elétrico. "O veículo elétrico proporciona importantes vantagens em relação aos carros convencionais, acionados por motor de combustão interna, entre elas, menor emissão de poluentes e maiores eficiências energéticas", afirmou Erber. No entanto, segundo o presidente da entidade, apesar dos benefícios conferidos ao meio ambiente, a produção de veículos elétricos está longe de ganhar escala no Brasil. "E bem difícil fazer a previsão para os veículos elétricos. Para se tornarem realidade no país vai depender da percepção do governo. Mas, acredito que em 2020 teremos uma boa parcela de vendas de carros a bateria e híbridos", arriscou Erber.

Desafios pela frente - Um dos problemas enfrentados pelos VE's são as baterias. "Para o carro alcançar uma boa autonomia, a bateria teria de ser muito grande", disse o presidente da ABVE. Atualmente, a maioria dos modelos comercializados circula até 150 km com a carga da bateria, o que constitui uma limitação para alguns usuários. Mas, este cenário deverá mudar com os constantes investimentos no desenvolvimento de baterias e supercapacitores para aumentar a energia armazenada.

O custo inicial para adquirir um VÊ também é mais alto que o gasto com o carro convencional. Em contrapartida, o custo operacional do elétrico é menor. "O custo inicial mais elevado é diluído durante o período em que se circula com o veículo já que carregar a bateria sai a um preço mais baixo que encher o tanque de combustível", disse Erber. Segundo o presidente da entidade, o valor de uma carga de bateria deveria ser em torno de R$ 8,00, que permitiria uma quilometragem de 120/150 km, enquanto abastecer o automóvel com álcool sairia por aproximadamente R$ 13,00 e, à gasolina, RS 24,00, para rodar a mesma distância.

 

Outra dificuldade a ser transposta é o tempo de carregamento da bateria - varia de 4 a 8 horas. De acordo com Erber, algumas baterias tem carga rápida, mas não se sabe se este tipo de carregamento diminui o tempo útil do produto. Outras questões relevantes são os pontos de abastecimento, bem como os horários para carregamento da bateria. "O carregamento deve ocorrer fora da demanda máxima, portanto, será necessário oferecer tarifa diferenciada em horários alternativos", comentou Erber. Quanto aos pontos de abastecimento também precisam de investimentos. Na França, por exemplo, há tomadas na garagem dos prédios.

Ao ser questionado se as redes de distribuição de energia estão preparadas para atender este novo mercado, Erber enfatizou: "Energia não é problema. O crescimento do mercado de veículos elétricos será gradual. Assim, as distribuidoras de energia terão ternpo para se expandir".

Primeiros pontos de abastecimento em SP

A EDP no Brasil, empresa do Grupo EDP Energias de Portugal, inaugurou, em maio, sua primeira rede dedicada de abastecimento elétrico no estado de São Paulo, na cidade de Guarulhos, área de concessão da EDP Bandeirante. Enquanto os veículos elétricos não chegam corn força ao País, os pontos vão abastecer as bicicletas elétricas. Além da instalação de três postos de recarga, a EDP doou ao município 15 bicicletas elétricas para uso da Guarda Municipal de Guarulhos no patrulharnento e manutenção da segurança das principais vias da cidade.

 

A iniciativa ocorreu três rneses após a EDP ter sido pioneira ao instalar a primeira rede de abastecimento elétrico no Brasil, no estado do Espírito Santo, onde está presente com a distribuidora EDP Escelsa.

Este projeto de mobilidade elétrica Íntegra a política de inovação do Grupo, que lançou o Programa de Inovação "EDP 2020", colocado em prática neste ano. "A relação dos consumidores com a energia elétrica vai se alterar profundamente nesta década. A mobilidade elétrica é um dos novos paradigmas que vai entrar nas nossas vidas. Como empresa de energia, precisamos estar estruturalmente preparados para estes novos modelos de negócio", explica Pita de Abreu, diretor-presidente da EDP no Brasil.

Nesta etapa paulista, a proposta da EDP é estender a ação para outras cidades da área de concessão da EDP Bandeirante, localizadas no Vale do Paraíba, Alto do Tietê e Litoral Norte.

Em Guarulhos, os pontos escolhidos para receber a instalação das estações de abastecimento serão a Secretaria de Segurança (Centro da Cidade), Bosque Maia e Lagoa dos Patos. Estas são áreas-chave no patrulharnento da Guarda Municipal, que passarão a utilizar as bicicletas elétricas doadas pela EDP nas ruas próximas às estações de recarga.

O prefeito de Guarulhos, Sebastião Almeida, explica que é um importante acontecimento para a cidade. "Para Guarulhos, é uma honra receber os primeiros postos de abastecimento elétrico do Estado de São Paulo. A utilização das bicicletas elétricas no serviço de ronda de nossa Guarda Civil será um exemplo para outras cidades do País. O Poder Público precisa valorizar, cada vez mais, as parcerias com a iniciativa privada para tentar reduzir os impactos da poluição sobre nosso planeta", afirma o prefeito Sebastião Almeida.


Reabastecimento elétrico

O reabastecimento da bateria de um veículo elétrico pode ser feito em uma tomada normal, com tensão de 127 volts. A bateria da bicicleta elétrica é totalmente abastecida em seis horas. Para se ter uma idéia do funcionamento, a recarga das bikes pode ser comparada a de um aparelho de celular.

As bicicletas são impulsionadas por motores elétricos alimentados por baterias acopladas ao bagageiro e são recarregáveis a cada 30 km percorridos, distância compatível com o percurso patrulhado pelo guarda municipal. A bicicleta atinge 25 Km por hora e tem um baixo consumo de energia, chegando a aproximadamente 0,8 Km/h. Este consumo é equivalente ao gasto de uma lâmpada incandescente de 100 Watts.

"O investimento em mobilidade elétrica também ajuda na redução da emissão de gases poluentes na atmosfera. Ao substituir uma motocicleta de 125 cilindradas por uma bicicleta elétrica, por exemplo, deixamos de emitir 85 C02g/ Km na atmosfera", finaliza Miguel Setas, vice-presidente de Distribuição da EDP no Brasil.

A experiência do "carro verde" no mundo

Na última década, os veículos elétricos estão se tornando objeto de interesse global. O Brasil ainda está dando os primeiros passos. Foi criado o Grupo de Trabalho do Carro Elétrico, onde participam Ministério da Fazenda, por meio da Secretaria de Política Econômica; Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; Ministério do Meio Ambiente; Ministério de Ciência e Tecnologia; Anfavea (Associação dos Fabricantes de Veículos Automotores); Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores); ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico e Fenabrave. Segundo o consultor Ricardo Carvalho, escolhido para representar a Fenabrave no grupo, o objetivo é avaliar o desenvolvimento de novas tecnologias para veículos elétricos, puros ou híbridos, bem como elaborar estratégias para estabelecer políticas públicas voltadas para essa nova tecnologia na indústria brasileira e mercado.

A partir das informações enviadas pelo Grupo, foi desenvolvido um Relatório Preliminar da Indústria Automotiva. O estudo apresenta não só um panorama da indústria automotiva no Brasil, mas também dados sobre o Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular e o Programa de Controle da Poluição do Ar (PROCONVE), bem como experiências internacionais sobre o tema.

De acordo com o relatório preliminar, no mundo, há inúmeras iniciativas para estimular a produção de veículos híbridos e elétricos, além de estudos avançados sobre as baterias e formas de se reduzir o tempo de carregamento do produto. De acordo com o relatório, no Brasil, não há foco no desenvolvimento de novas tecnologias para baterias. Os avanços alcançados no país se concentram no setor de transportes de passageiros.

Na Alemanha, há um programa de incentivo fiscal para aquisição de até 100 mil veículos elétricos de passeio. Atualmente, há aproximadamente 10 mil veículos elétricos rodando pelas vias alemãs, de uma frota de 41 milhões. Segundo as estimativas, em 2020, 1 milhão de veículos elétricos deverão circular pelo país. Para 2030, este número deve saltar para 5 milhões. Para chegar a este resultado, o governo pretende investir 500 milhões de euros na cooperação entre a indústria, centro de pesquisa e setor público até 2015. Já nos Estados Unidos, o governo anunciou, em agosto de 2009, a concessão de US$ 2,4 bilhões em recursos federais para ajudar empresas e universidades na criação de bateria e veículos híbridos e elétricos. Estuda-se reduzir o tempo de carregamento das baterias para 10 minutos. Há também subsídio de US$ 7.500 para compra de veículos elétricos. O Reino Unido conta com um pacote de incentivos de 250 milhões de libras para criar uma rede de transporte de baixa emissão de poluentes. Parte do plano de incentivos é uma ajuda de 2 a 5 mil libras para a compra de veículos elétricos. Em alguns estacionamentos da cidade de Londres não há cobrança para veículos elétricos.

Iniciativas não faltam no segmento de veículos mais verdes. No entanto, ainda há muito caminho a ser percorrido para a consolidação da mobilidade elétrica no Brasil. Será preciso oferecer mais autonomia aos VE's, com o desenvolvimento de novas tecnologias para as baterias e aumento da capacidade de armazenamento. Investimentos em infraestrutura para o carregamento também serão necessários, bem como avaliar o sistema de troca de baterias e incentivos para aquisição dos carros cada vez mais "limpos".

 



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